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  • Bráulio Conceição

Arquitectura composta por partes


INTRODUÇÃO


A actividade de projectar sempre me cativou, pois não é algo sistemático nem tem métodos demasiado precisos. No entanto, à liberdade criativa sempre se juntou um pouco de razão, talvez de ciência, pois a arquitectura nunca se pode dissociar desse factor. A força do acto de projectar está, de certa forma, ligada ao modo em como conseguimos juntar na mesma fórmula ciência e arte.


Como é que se parte para um novo projecto como uma folha em branco, como se a arquitectura começasse de novo? Com o passar do tempo, o nosso atelier vai definindo e melhorando o seu método de projectar, sentindo sempre que pode utilizar a seu favor alguns sistemas arquitectónicos, que o podem ajudar a criar uma base sólida para cada novo projecto. Estamos a falar de alguns sistemas arquitectónicos que têm a capacidade de transcender os lugares de implantação, o programa pedido pelos clientes, a construção dos edifícios e até mesmo a composição da própria arquitectura. Sistemas que têm a capacidade de perdurar no tempo, que conseguimos identificar quando olhamos para determinados edifícios, sejam eles antigos ou modernos.


O primeiro sistema que vamos apresentar chama-se arquitectura composta por partes. Este “método de fazer arquitectura”, algo abstracto, está ligado a diferentes estilos e tipos de arquitectura, contudo, é um método que funciona independentemente do tempo e do lugar da própria arquitectura.

Fazendo um pequeno apanhado histórico, e seguindo a linha de pensamento do arquitecto Antón Capitel, podemos dizer que este sistema se revelou de maneira mais notória na época do maneirismo renascentista, mais concretamente na obra de Andrea Palladio, e que continuou a desenvolver-se pela arquitectura ensinada nas academias dos séculos XVIII e XIX, apanhando também o período barroco, com especial destaque para a obra de Filippo Juvarra. No entanto, podemos dizer que adquiriu maior expressão quando se transferiu para a arquitectura moderna do século XX. Todavia, continua muito presente nalgumas obras da arquitectura contemporânea.


Sintetizando, podemos dizer que é um sistema que se baseia sobretudo, na consideração de que a arquitectura nasce de um programa de necessidades, ou seja da sua própria função. O projecto nasce a partir dos vários elementos que compõem o seu programa, por exemplo; uma casa precisa de uma ampla sala de estar, de uma cozinha, de quartos, etc, e assim se vai construindo, pela adição das suas partes, até comporem o resultado final. A forma e o espaço das arquitecturas que adoptaram este sistema estão intrinsecamente ligados à sua função. O edifício é o resultado da união criteriosa de todos estes elementos, de forma a criar um conjunto coerente, mais ou menos unitário.


Normalmente, estas arquitecturas tendem a desenvolver-se no plano horizontal, e estão quase sempre implantadas em lugares isolados, sem proximidade a construções vizinhas. Exemplificando de forma sucinta, na época renascentista houve alguns factores que sustentaram este sistema, contribuindo para a harmonização de todas as partes, como a simetria, a centralidade e a existência de um elemento central que protagoniza o conjunto.


Feita esta pequena introdução, chega altura de explicarmos como será organizado este trabalho daqui para a frente. De seguida, serão apresentados dois capítulos que irão analisar dois casos de estudo que se fundamentam nesta ideia de sistema, um edifício da época da arquitectura clássica renascentista e outro da época da arquitectura moderna do século XX. Para concluir, no terceiro e último capítulo, será apresentada uma casa projectada recentemente pelo nosso atelier, que vai tentar incorporar todos os princípios que caracterizam este tipo de sistema, apresentados nos capítulos anteriores.



CAPÍTULO 1 - VILLA PISANI DE ANDREA PALLADIO

Andrea Palladio, arquitecto e construtor paduano do maneirismo renascentista, muito influente em Itália e noutros países europeus (com destaque para Inglaterra), foi um vanguardista europeu que rompeu com muitos aspectos da tradição renascentista aplicada pelos seus mestres anteriores.


O sistema de composição por partes foi utilizado em algumas das suas obras, contudo, a Villa Pisani em Montagnana (1553-1555), parece-nos ser o exemplo que melhor sintetiza alguns dos princípios associados a este sistema.


Implantada de forma isolada, esta vila renascentista apresenta um conjunto de três volumes - um central e dois laterais, organizados a partir de um eixo de simetria. Uma particularidade notável deste edifício tem a ver com a sua hierarquização formal, estabelecendo o volume central como o elemento principal da composição e os volumes laterais simétricos como anexos. O facto de existir uma forte simetria no desenho dos volumes ajuda a que o conjunto ganhe uma certa coerência.


Com isto, ao analisarmos a planta, conseguimos perceber que o programa funcional também acompanha esta hierarquização, isto porque os espaços que contêm as funções mais importantes na vivência da casa dão forma ao volume principal. Contudo, percebemos ainda que existe uma relação proporcional numérica no dimensionamento de todos os espaços, partindo todos da forma quadrangular, assim, este desenho permite que haja uma sistematização na organização espacial de todo o projecto, ajudando que todas as partes façam parte do mesmo conjunto.


Importa ainda referir que os corpos laterais estão ligados ao resto da casa através de duas pontes, que funcionam unicamente como espaços de circulação. Estes elementos “rótula” são essenciais na composição do conjunto, pois não só permitem interligação entre os três volumes, como também, devido à sua reduzida dimensão face ao conjunto, deixam “respirar” os volumes principais, destacando-os.


Observando agora o alçado, apesar das partes serem diferentes entre si, a grande coerência formal no conjunto, é-nos revelada também pela continuidade na linguagem formal, mais propriamente, através do uso das ordens clássicas, tema recorrente em toda a obra de Palladio.


Concluímos este capítulo referindo que estamos perante um sistema arquitectónico composto por partes muito completo, no entanto, muito clássico e ordenado, logo pouco “elástico” e versátil espacialmente.



CAPÍTULO 2 - CASA WILLITS DE FRANK LLOYD WRIGHT

Começamos este capítulo dizendo que toda a primeira fase da obra de Frank Lloyd Wright pode estar associada, em boa medida, a este sistema arquitectónico. Citando novamente Antón Capitel, este facto pode estar ligado à aprendizagem e à ideologia da instituição académica francesa, visto que parte da formação académica de Wright passou por Paris. Apesar de vários serem os exemplos que poderíamos aqui abordar, a casa Willits, em Highland Park, Illinois, 1902, é a obra que melhor exemplifica este tipo de sistema.


Ao analisarmos a planta desta casa, podemos ver como o interior é organizado de uma forma completamente funcional, ou seja, as várias partes são dimensionadas e hierarquizadas de acordo com o seu programa correspondente. Estas partes estão agrupadas de forma compacta ou de forma destacada, configurando um todo em forma de cruz. Esta cruz não é completamente simétrica nem uniforme, no entanto, apresenta-se bastante ordenada e coerente.


O funcionalismo mais radical dos espaços mais interiores, fica mais ordenado e simétrico nos extremos da cruz, onde se localizam as salas. Ao analisarmos o dimensionamento e o desenho dos vãos destas salas, percebemos que estes espaços passam a ganhar ordem e simetria. Esta simetria vai favorecer todo o desenho das coberturas, pois vão ser elas, que com a sua poderosa presença, vão confirmar a ordem absoluta do conjunto.


Estamos perante uma casa que joga, de uma maneira sábia e habilidosa, com a ordem e com a desordem. Neste edifício, ordem e desordem são complementares, ou seja, as condições funcionais (a complexidade do programa), acabam por desordenar a casa, mas favorecem um modo de configuração espacial, que se fosse mais clássico acabaria por ser mais rígido.


O facto desta simetria não ser completa, faz com que tanto a organização funcional como a composição visual sejam importantes. São opostos e complementares, numa mistura que gera imensa riqueza espacial. Podemos concluir este capítulo dizendo que Wright foi um dos arquitectos que melhor conseguiu explorar as possibilidades espaciais geradas por este sistema, levando-as a extremos bastante interessantes.



CAPÍTULO 3 - CASA NA VINHA, EM TOMAR

Todo este percurso serviu para chegarmos ao terceiro e último capítulo. Em modo de conclusão, ele pretende sintetizar todos os princípios que caracterizam este tipo de sistema. Vamos começar por colocar uma pergunta bastante pertinente: Como é que a investigação feita até aqui, analisando os dois casos de estudo e aprendendo com eles, pode ajudar a construir ideias e conceitos, que podem ser utilizados de modo operativo na fase de concepção de projecto? Vamos responder a esta pergunta com a apresentação do próximo último projecto realizado pelo nosso atelier.


Na extensa paisagem de vinha do Bugarrel, em Tomar, a nova casa com programa familiar, implanta-se de forma semienterrada no terreno, propondo uma simplicidade orgânica na exploração da morfologia deste território.


Abrindo-se para a melhor vista, a Nascente, é através de uma subtil inflexão na sua geometria que tenta construir uma relação mais próxima não só com a paisagem, mas também com a melhor exposição solar, permitindo a abertura dos compartimentos interiores “quase” a sul.


Ao analisarmos a planta da casa, podemos ver como dois corpos de carácter distinto, social e privado, são separados através de uma “rótula" que contraria uma rigidez formal, que poderia resultar de uma articulação mais “clássica” entre os volumes. Esta “rótula” funciona como um generoso hall de entrada que arruma e organiza toda a vivência no interior.


Tal como acontece na casa Willits, as várias partes da casa são dimensionadas e hierarquizadas de acordo com o seu programa correspondente. No entanto, o projecto revela uma hierarquização formal representada pela intensidade do desenho das coberturas, assumindo claramente o volume da sala como o mais sonante do projecto, através da sua expressiva cobertura de uma água, que se solta da volumetria criando uma generosa zona de alpendre exterior.


A simetria aparece discretamente na sala principal, resultando numa ordem formal que traz uma certa complexidade e contradição ao projecto. Existem vários elementos na composição do espaço que permitem a leitura desta simetria, tais como o desenho da cozinha e o desenho do grande vão envidraçado a nascente. Neste projecto procura-se uma simetria não completa, apenas necessária naquele que é considerado o espaço principal. Tal como Wright, procura-se dar tanta importância à organização funcional como à composição visual deste espaço.


Posto isto, é tempo de concluirmos este trabalho, percebendo que a viagem feita até aqui serviu não só para aprendermos um pouco mais sobre este sistema arquitectónico, já muito utilizado e desenvolvido por vários arquitectos ao longo de várias gerações, mas também para o sabermos reutilizar, reciclando as suas ideias, transformando-as, de forma a conseguirmos explorá-lo, tentando sempre, levá-lo o mais longe possível. O sistema arquitectónico composto por partes é o primeiro de muitos, que o nosso atelier se propõe a explorar e a investigar.


FIGURAS

fig.01 - Esquisso do Palacete Stupinigi, Filippo Juvarra ;

fig.02 - Planta e Alçado da Villa Pisani, Andrea Palladio,

fig.03 - Planta e Alçado da Casa Willits, Frank Lloyd Wright,

fig.04 - Esquisso da Casa na Vinha realizado pelo autor,

fig.05 - Planta e Alçado da Casa na Vinha.


BIBLIOGRAFIA

- CAPITEL, Antón; Tres Sistemas Arquitectónicos - Pátios, Partes e Forma Compacta, Fundación Arquia, 2016

- MCCARTER, Robert, editor; On and By Frank Lloyd Wright - A Primer of Architectural Principles, Phaidon, 2005

- PALLADIO, Andrea; I Quattro Libri Dell'Architettura, MIT PRESS LT

- RODRIGUES, José Miguel; Lições de Arquitectura - Palladio e o Moderno, Circo de Ideias, 2019


- escrito em 2022

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