• Bráulio Conceição

O problema de uma vila museu


INTRODUÇÃO

Foi em 2015, durante o desenvolvimento da minha tese final de Mestrado sobre o urbanismo da Vila de Mértola, que senti a necessidade de visitar outras vilas e cidades mediterrâneas de origem islâmica localizadas no Sul da Península Ibérica, de forma a melhorar o meu entendimento sobre as questões que poderiam vir a surgir.


Ao percorrer as labirínticas ruas do casco velho de Mértola, durante várias horas, reparei que ainda não me tinha cruzado com ninguém, o que despertou em mim uma questão essencial, também comum a outras vilas idênticas a esta, como Monsaraz por exemplo. O problema centrava-se na questão de várias vilas se estarem a tornar em vilas museus, ou seja, porque é que estas vilas históricas, culturalmente tão estimulantes e importantes, ficaram “cristalizadas” no tempo? Porque é que ao longo dos anos, o urbanismo e arquitectura estagnou, não evolui, não conseguindo assim dar resposta às necessidades de “conforto” de um estilo de vida mais “moderno”? Tendo esta questão como ponto de partida, decidi investigar o tema mais a fundo, e em 2015 escrevi um artigo, que passo a publicar:



MÉRTOLA, UMA PERMANÊNCIA HISTÓRICA

Foi durante o desenvolvimento urbano da Vila de Mértola, que com o passar do tempo, os habitantes progressivamente se foram afastando do centro histórico. Bem longe deste centro, a grande Avenida à qual se amarram as novas urbanizações é o principal pólo gerador da vida quotidiana nos dias de hoje. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e grande parte da população procura nas novas urbanizações as condições objectivas e subjectivas de vida que não encontra no centro histórico.


Quando introduz a teoria da permanência e dos monumentos, apoiado na obra de Marcel Poète, Aldo Rossi ajuda a compreender o problema que aqui é levantado. Para ele, as permanências de uma cidade podem ser consideradas patológicas ou propulsoras, ou seja; ou os habitantes ficam ligados a uma série de factos urbanos que se isolaram da vida citadina, ou conseguem servir-se desses mesmos factos procurando compreender e habitar a cidade na sua totalidade. Rossi faz a distinção entre permanência histórica, enquanto forma de um passado que ainda experimentamos e a permanência como elemento patológico, como algo isolado e aberrante.

TRÊS CASOS DE ESTUDO

Para clarificar este ponto de vista, são introduzidos dois monumentos pertencentes ao território do Sul da Península Ibérica, que actualmente permanecem de maneira diferente na sua cidade.


Bem no centro da cidade de Córdoba, a antiga mesquita representa uma adaptabilidade e articulação directa com a urbe. Apresenta um carácter permanente, não apenas por possibilitar a experiência de outras épocas mas também porque a forma física do passado foi assumindo diferentes funções ao longo do tempo, adaptando-se ao ritmo cardíaco da sua cidade. A gravura apresentada em cima, mostra o patamar "amarrado" à fachada exterior da mesquita. Elemento arquitectónico que permite a apropriação da mesquita por parte dos habitantes da cidade. Este elemento mantém-se desde o período árabe até os dias de hoje.


Por outro lado, no Alhambra de Granada, os seus habitantes experimentam a forma do passado de maneira diferente. A forma está isolada da cidade e constitui uma experiência de tal modo essencial que não pode ser modificada, apesar de constituir o polo de atracção e até um elemento definidor de Granada, tendo exercido e ainda exercendo uma função de grande alcance. Por ser uma parte imprescindível na história do desenvolvimento desta cidade, encontra-se de tal forma conservado que apenas responde aos interesses turísticos. Note-se que, apesar do núcleo mais antigo da urbe se situar no alto, junto ao Alhambra, a cidade há muito que dali desceu; e o próprio Alhambra foi um lugar reservado aos senhores – e de certo modo, assim isolado se mantém.


O que se pode concluir na avaliação das duas permanências, é que o processo dinâmico de uma cidade, tende mais para a evolução do que para a conservação, e no seu processo evolutivo os monumentos desempenham um papel essencial, devendo ter capacidade para responder às diferentes dinâmicas sociais e urbanas geradas pela vida quotidiana.


Fora da análise da arquitectura monumental outro facto que se apresenta numa condição mista, em que o aspecto turístico se mescla com a realidade quotidiana é o próprio tecido urbano. Com efeito, é o que acontece em Lisboa, em bairros como Alfama e Mouraria. Castiços sê-lo-ão, possuindo uma sociabilidade própria: cuja realidade ultrapassa os bairros que geram, influenciando outros em redor – veja-se o caso do “pátio”. Do folclore à arqueologia, do prazer de passeante à descoberta do pequeno monumento (a pequena igreja paroquial, a muralha), esses elementos dão origem a uma permanência quase improvável, mas uma permanência partilhada quer por habitantes quer por forasteiros.



CONCLUSÃO


Assim se entende a permanência que deverá estar presente na zona da vila velha e do arrabalde de Mértola. Mesmo falando de contextos completamente diferentes, hoje observa-se um crescente estado de conservação do antigo tecido urbano, cada vez mais desabitado, constituindo-se como uma permanência isolada do dia-a-dia da vila. Já ensinava Fernando Távora que a história vale na medida em que pode resolver problemas do presente, ou seja, na medida em que se torna um auxiliar e não uma obsessão.



FIGURAS


fig.01 - Rua Latino Coelho, Mértola, fotografia tirada por Miguel Moreira, 2014

fig.02 - Vista do casario do centro histórico de Mértola, fotografia tirada por Miguel Moreira, 2014

fig.03 - Litografia da Mesquita de Córdoba, Gustavo Doré, 1867

fig.04 - Litografia dos Palácios do Alhambra, David Roberts, 1833


BIBLIOGRAFIA


ROSSI, Aldo; A Arquitectura da Cidade, Edições 70, novembro 2016

TÁVORA, Fernando; Da Organização do Espaço, Editor FAUP - Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 1999



- escrito em 2015

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