• Guilherme Pedrosa

Prefácio para um Caderno de Viagem


(…) la función indiscutible del arte, en mi opinión, está enlazada con la ideia del conocimiento,(…) Una y otra vez, el hombre se poene en relación con el mundo movido por el atormentador deseo de apropriarse de él, de ponerlo en consonancia con ese su ideal que ha conocido de forma intuitiva.”


Andrea Tarkovski, Esculpir en el Tiempo



Artistas, como Escultores ou Arquitectos, partem da sua percepção da vida, para criarem uma nova existência que nasce de acordo com o seu mundo interior. Ao fazerem-no expõem-se ao julgamento de outros mas também conseguem operar na realidade uma transformação que a coloca em consonância com a sua subjectividade, apropriando-se dela.


A entidade que o fotógrafo cria parte de uma vontade semelhante mas tem a particularidade de o fazer a partir de uma realidade que já existe. O fotógrafo é portanto como um poeta pois revela através da sua sensibilidade um modo distinto de ver o mundo. Com o mesmo cuidado e carinho com os quais o arqueólogo usa a sua escova para descobrir novas camadas de história, o fotógrafo usa a sua lente para revelar as camadas da existência que ressoam de acordo com a sua sensibilidade interior. Cada fotografia é por isso o resultado do que existe filtrado pela subjectividade humana do autor.


Como amigo, mais do que amante da Arquitectura ou da Escrita (mau amante em ambos os casos diga-se), acompanhei a Carolina em muitas das viagens onde estas imagens foram reveladas. Sei por isso as histórias e emoções por detrás de cada momento e sei como estas representam o seu rico mundo interior que tem absorvido, com ávida vontade, os belos detalhes que cada um destes episódios ofereceu.


Vejo, através das páginas deste livro, como o seu olhar vai amadurecendo ao compreender melhor as incidências da Luz, as formas da marca humana na paisagem ou os encontros casuais com a Natureza que mais a entusiasmam e nos deseja mostrar.


E ao folhear este percurso reconheço também a particularidade deste olhar, de não ser só de um mas de dois, ao surgir também com o contributo honesto e encorajador do romance de uma vida, do seu ombro amigo e abraço acolhedor. Uma dinâmica a dois que estimula a ocorrência de novos episódios e emocionantes viagens.


Assim e por compreender que o simpático leitor prefere (e com justiça) mergulhar de imediato nestas viagens e deixar de perder tempo com o jovem tantã que aqui escreve, termino dizendo como este livro, mais do que um princípio de carreira, é um momento na viagem de vida desta fotógrafa que tem muito mais para nos mostrar.


- escrito em 2019

 

Caderno de Viagem

Península Ibérica e Açores, 2014 a 2018

Fotografias por Carolina Delgado



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