• Cláudio Fernandes

Uma Igreja em Taipa


IMPLANTAÇÃO

O terreno a intervir localiza-se na periferia da cidade de faro, numa zona urbana pouco consolidada e com carência de espaços públicos. Após algumas reuniões com a Câmara Municipal de Faro, conseguimos convencer os vereadores a estendermos o nosso projecto, de forma a intervir em todo o quarteirão, oferecendo um novo jardim público que vai servir toda a comunidade que ali vive.


Esse jardim irá oferecer várias zonas de lazer, sendo “rematado” pela zona do quarteirão a Norte onde se irá implantar a nova igreja. Esta implantação é feita de forma a gerar um novo facto urbano, uma nova praça que recebe e junta os habitantes, para depois os preparar para a entrada no complexo religioso.

Esta praça é ainda marcada pelo torreão da igreja. O uso deste elemento singular, quase escultórico, que se distingue da construção envolvente, está associado à sua leitura como um novo símbolo para esta zona da cidade. Algo que irá marcar a memória dos praticantes e habitantes que por ali passarem, que vão passar a identificar esta praça como um lugar público, aberto a todos. O que seria se duas das mais belas praças do mundo, como a Piazza del Campo de Siena ou a Piazza de San Marco em Veneza, não tivessem os seus torreões?


PROGRAMA FUNCIONAL

O programa da nova igreja é dividido em duas partes distintas; uma zona social, de forma a receber todas as actividades colectivas ligadas ao convívio, e uma zona mais privada, de forma a receber as actividades mais individuais, ligadas à prática do culto.


Inspirados na arquitectura popular algarvia e alentejana, propusemos que cada zona fosse servida por um pátio, cada um com a sua personalidade. Relacionado com as ruas do bairro, o pátio da zona social tem como objectivo estar sempre cheio de vida. É este pátio que vai acolher todas as actividades sociais da igreja, desde cânticos ao ar livre até à entrega de refeições a pessoas desfavorecidas.


Ao contrário do primeiro, o pátio da zona mais privada não tem como objectivo ser praticado, mas sim para servir como um cenário de fundo, mais calmo e sereno que ajuda a proteger e iluminar o espaço de culto.



VERSATILIDADE ESPACIAL

Uma das principais premissas relacionadas com a igreja tem que ver com a criatividade e dinamismo com que os praticantes irão usufruir do espaço. A forma de melhor responder a este enunciado, foi através da construção de uma nova espacialidade onde cada espaço é desenhado de forma aditiva. Os interiores são descobertos subtilmente, pouco a pouco, à medida que se entra e se avança de um espaço para outro. Ou seja, os espaços foram desenhados de forma a não existirem corredores ou "espaços mortos” de circulação, permitindo uma total apropriação dos espaços da igreja ao mesmo tempo. Cada espaço pode funcionar autonomamente ou ter a capacidade de se transformar, absorvendo o espaço vizinho, permitindo assim a versatilidade espacial das salas, podendo elas esticar ou encolher conforme pretendido. O pavimento contínuo em betonilha afagada, pretende reforçar esta união espacial.



A SALA DE CULTO


No Algarve existe uma grande diferença de população do Inverno para o Verão, por isso, existe um crescimento exponencial de praticantes durante o Verão. Mais uma vez, é através da possibilidade do crescimento espacial por “adição”, que o espaço de culto se pode “estender” ou “encolher”, de forma a responder da melhor forma, à quantidade de pessoas que poderão vir a utilizar este espaço.


No espaço de culto, o pátio ao fundo, aparece como limite do campo de visão, trazendo serenidade ao ambiente através da sua materialidade e vegetação. Como o tipo de construção não permitiu um grande pé-direito, optou-se por utilizar uma estrutura em barrotes de madeira, forrada nos intervalos a pano branco, de forma filtrar uma suave luz zenital, criando a ideia de não haver tecto, gerando uma atmosfera mais ligada ao divino.



LUZ CONTROLADA

As janelas não servem para admirar o exterior ou para proporcionar vistas, mas sim para permitir a entrada de luz filtrada, apenas onde necessário, numa preocupação com o conforto e privacidade interior. Espacialmente, é uma arquitectura que nasce de dentro para fora, do interior para o exterior.


A sucessão dos espaços, desde a porta de entrada até aos pátios exteriores, traduz um percurso todo ele pensado, de forma quase teatral, jogando com diferenciados pés-direitos, diferentes aberturas para o exterior e gradações luminosas bastante controladas: Luz, penumbra, sombra.


Assim, os efeitos da luz e as suas diferentes intensidades, criam tipos de ambientes diferenciados, tornando-se definidores dos espaços. A luz pode entrar através de vãos de pequena dimensão nas salas privadas, através de vãos de grande dimensão nos espaços sociais ou através clarabóias no espaço de culto. Este controlo da luz ajuda a criar a atmosfera pretendida para cada espaço específico.



PORQUÊ A TAIPA?

Primeiro, por questões históricas. Grande parte dos edifícios, tanto na zona do Alentejo como na zona do Algarve são construídos em terra. Existe uma cultura arquitectónica desenvolvida à volta da taipa.


Segundo, por questões geológicas. As pessoas construíam com aquilo que o solo lhes dava, e nestas zonas, as terras do solo, ricas em argilas, serviam muito bem a construção dos vários edifícios.


Terceiro, pela questão da sustentabilidade. Utilizar o material do solo, para ao solo voltar. Utilizando-o em vez materiais contemporâneos menos sustentáveis, como por exemplo o betão ou o aço. Esta questão da sustentabilidade está ligada à térmica e acústica, pois este tipo de construções permite reter mais energia dentro dos edifícios, funcionando melhor termicamente e respondendo melhor às ideias de conforto e de habitabilidade.


A taipa é ainda um material denso que pode ser trabalhado no sentido “cheio/vazio”, ou seja, quase como se fosse uma gruta, um maciço que não deixa entrar muita luz, gerando assim ambientes muito mais íntimos e reservados. Logo, desde o início que nos pareceu que este material tinha uma relação muito pertinente com o programa pedido pela Igreja.



SISTEMA CONSTRUTIVO

Contudo, ao utilizar este material não nos podíamos esquecer das suas questões práticas. É um material que tem características diferentes do aço e do betão, e que por isso leva a soluções estruturais bastante diferentes.


Com isto, após ficarmos com as intenções arquitectónicas bem definidas, tivemos de adaptar este material às nossas intenções. Começámos por trabalhar em maquete, de forma a trabalharmos a “massa”, sabendo sempre que ao abrir vãos, estes teriam que ter dimensões muito controladas. No entanto, não quisemos abdicar deles, “rasgando-os” de uma forma mais contemporânea, como acontece, por exemplo, nos grandes vãos que dão acesso aos pátios.


Após este estudo em maquete, chegámos à conclusão de que devíamos deixar o esqueleto interior crescer, revestindo o edifício com uma muralha de taipa, abrindo os pátios, deixando a luz entrar e usufruindo do próprio material para ajudar a criar um ambiente mais sereno.


Utilizamos a estrutura de madeira para dar forma a este esqueleto interior, permitindo assim, a abertura de vãos grandes para os pátios interiores, reforçando assim, o contacto visual com este material, permitindo que esta muralha, também fizesse parte da experiência espacial interior.


Fizemos maquetes à escala real, para estudarmos a relação da taipa com outros materiais. Não queríamos misturar a taipa com outros materiais que não fossem compatíveis, daí a criação deste esqueleto, como um sistema autónomo que se relaciona, lado a lado, com a muralha de taipa. O projecto nasce assim da contradição entre os dois sistemas construtivos, a leve estrutura de madeira, com a pesada muralha de taipa.



FIGURAS


fig.01 - Planta de implantação;

fig.02 - Esquissos realizados durante a fase de Estudo Prévio;

fig.03 - Planta da igreja, projecto de execução;

fig.04 - Imagem 3d do ambiente pretendido para a sala de culto;

fig.05 - Corte longitudinal a passar na sala de culto, projecto de execução;

fig.06 - Imagem 3d que mostra a entrada de luz controlada a partir do pátio social;

fig.07 - Maquetes de taipa à escala real, construídas com terra do lugar;

fig.08 - Maquete de estudo da muralha de taipa.



- transcrição da conferência em Odemira, no âmbito das Jornadas Técnicas OET - Construção em Taipa, Outubro 2022, sobre o projecto - Igreja de Taipa em Faro, realizado pela equipa "Atemporal Partners"

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